Em análise

Estar em terapia é como seguir uma estrada. Escrevi algo parecido quando comecei a fazer psicanálise na condição de analisado.  

Você começa completamente perdido/a, mas precisa se mexer. No meio do caminho você aprende o que fazer, quais rumos tomar, entende uns macetes, quebra a cara algumas vezes, adquire jogo de cintura, e mesmo sem saber para onde está indo, prossegue a jornada, tentando torná-la prazerosa. Às vezes dá certo, às vezes, não.

Há dois anos eu estava emocionalmente doente. Repetia comportamentos tóxicos e não tinha ideia de como interrompê-los. Eu, que não sou muito de confidências, vi na oportunidade de conversar com uma pessoa “estranha”, a chance de me conhecer melhor, quebrar estes padrões e receber algumas dicas para situações específicas. Como dar dicas não é o objetivo da psicanálise, me frustrei, mas continuei, crendo nos benefícios a longo prazo do autoconhecimento. 

Guarde essa palavra: autoconhecimento.

De dois anos para cá, muita água rolou. Situações que não eram uma questão, tornaram-se importantes. Descobri outros pontos de vista, vi melhoras na minha relação com as pessoas, entrei em e saí de algumas frias; a lista é longa. E mesmo assim, não teve um mês em que eu não tenha pensado em desistir. Não dá mais, eu não sei o que fazer, eu não consigo foram algumas desculpas para justificar minha decisão. A terapeuta, percebendo estes momentos tempestuosos, sempre me deu espaço e respeitou minha decisão — inclusive quando eu ficava semanas sem ir. 

E por quê eu queria abandonar a terapia? Porque, ao contrário do que romantizam por aí, o autoconhecimento dói. Ele é, de fato, transformador, mas está longe de ser um mar de águas cristalinas. Uma vez escrevi:  “Aprender sobre si e entender certos tipos nocivos de comportamento, é ótimo. […] Mas nem sempre é um processo fácil porque a gente precisa sair de uma zona de conforto que, provavelmente, nos causará um incômodo.” A sensação de olhar para trás e ver progressos, traz conforto à alma; da mesma forma que analisar o passado e perceber as mesmas atitudes tóxicas, traz dor ao coração.

Às vezes imagino como eu estaria se não tivesse em terapia. Vivo? Acredito que sim. Mas de alguma forma, teria sucumbido às crises de ansiedade do fatídico 2018 — o ano que chamo de grande borrão

Hoje, ao analisar parte das minhas vivências, é claro que há situações que eu gostaria de já ter entendido e/ou resolvido, mas sei que leva um tempo; quando me sentir preparado, eu vou colocar luz sobre determinada situação e dissecá-la. Se vai ser fácil ou não, bom, eu não preciso saber disso agora.

Eu gostaria que o Felipe (2020) tivesse dito ao Felipe (2018) que pessoas à época importantes, se tornarão irrelevantes. Queria dizer a ele que o Felipe do futuro vai publicar um livro que vai ajudá-lo a enterrar algumas histórias; e será um projeto do qual ele terá muito orgulho.

Sigo em direção a uma vida mais consciente das minhas atitudes, das relações que quero/vou construir e com alguns objetivos em mente. Sei que esta jornada não tem fim, ela é intrínseca aos meus dias, mas eu já não vou pegar o mesmo caminho. Há novidades na estrada.

Photo by youssef naddam on Unsplash

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