Bate papo

Eu sabia que tinha feito merda quando ele chegou com fogo nos olhos.

A nossa amizade era improvável. Estudávamos na mesma faculdade, e ele foi meu veterano. Chegava na sala falando alto, conversando com todo mundo e isso me irritava. Aos poucos vi que ele era legal e ao nos aproximarmos, ficamos muito amigos. Temos tanta histórias, que não consigo escolher apenas uma. 

Algo que vira e mexe falávamos era sobre ele não conseguir se relacionar com as pessoas por tanto tempo. Em 10 anos de amizade eu nunca conheci um cara com quem ele ficou, nem os mais “sérios”. Ele só me falava quando o lance já tinha acabado. Ríamos da desgraça alheia e a vida seguia.

Um dia, quando ele mandou o print de uma conversa em que ele foi grosso com um cara – mesmo eu reprovando essa atitude -, achei que as coisas tinham passado dos limites. 

Eu não sei aonde eu estava com a cabeça quando tive a ideia de organizar uma conversa com os “ex mais sérios” dele, mas achei que seria uma boa ele falar tudo que ficou entalado na garganta. Eu juro que me pareceu uma boa ideia. Você acredita em mim? Achei eles nas mídias sociais e enviei uma mensagem. Fernando, Alex, Michel e Lucas; um a um foi me respondendo. E pra minha surpresa, todos toparam me encontrar. Era um sinal, só podia ser. Marcamos para dali 4 dias. 

Sábado à tarde, depois da terapia, eu fui encontrá-los no Sesc 24 de Maio. Chegamos antes do horário porque eu queria conversar com eles. E não me espantei em saber que, tirando alguns percalços, ele sempre foi good vibes e gentil com os meninos. Antes da hora marcada, eu tinha que tirar um tempo pra respirar e pensar. 

Eu achei estranho ela propor algo no Sesc 24 de Maio, num sábado, depois da minha terapia. Nem sabia que ela curtia esse tipo de rolê. Mas fiquei feliz com o convite e fui. Como eu detesto fazer os outros esperar, cheguei mais cedo.

Entrei no elevador ouvindo Hilary Duff, e até arrisquei uns passos em frente ao espelho. Certeza que o segurança me viu pelas câmeras, mas foda-se. Quando as portas se abriram, o coração disparou. Olhei pra ter certeza que eu não estava viajando, e vi minha amiga conversando com o Fernando, o Alex, o Michel e o Lucas. Um filme passou na minha cabeça; e fui correndo para o banheiro. Não pode ser, falei pra mim mesmo. Me tranquei na cabine e tentei organizar os pensamentos. E então, uma mensagem dela.

  • E aí, tá chegando?
  • Falta pouco. Segura a emoção. 😜
  • Vem logo! 😒
  • ME DEIXA EM PAZ! 😤

Respirei fundo e andei decidido. Fui contornando a lanchonete até chegar na mesa em que eles estavam. Ela foi a primeira a me ver, e os meninos viraram em seguida. 

Eu sabia que tinha feito merda quando ele chegou com ironia e fogo nos olhos.

  • Ora, ora, ora! Olha o que temos aqui. Quero participar da discussão. 
  • Ééérr, oi. Tudo bem?
  • De onde você veio? Não te vimos chegar.
  • Banheiro.
  • A gente precisa conversar
  • Oi, gatão, disse o Fernando
  • Oie, falou o Alex
  • Olá, o Michel disse
  • Oi, disse o Lucas

Ele não respondeu, cruzou os braços e disse apontando pro relógio:

  • Sem tempo, irmão. 
  • Meu, desculpa. Isso foi ideia minha.
  • Uma ideia merda! 
  • Calma, gatão, disse o Fernando
  • Eu chamei eles pra vocês conversarem. Eu sou sua amiga e não gosto de ver que você não consegue se relacionar com as pessoas. 
  • A incapacidade de me relacionar com as pessoas tá sendo tratada em terapia. E muito obrigado por compartilhar isso com eles.

Os meninos olhavam espantados; acho que nunca tinham visto ele irritado. 

  • Eu falei com a sua terapueta e ela me desaconselhou; mas eu quis mesmo assim.
  • Reitero, ideia merda
  • Gato, eu entendo você estar triste, mas a gen…, disse o Alex sendo interrompido
  • Quem tá triste aqui? Eu tô fervendo de ódio por ter que participar desse teatro que vocês se prestaram a fazer. E outra: a gente tem o quê pra resolver?

Silêncio

  • Não tem nada. Eu já falei tudo na época. O que vocês tão querendo, caralho? 
  • Na verdade, comigo você não conversou. Só foi grosso, disse o Lucas; 
  • Você está certo. Mas, Lucas e Alex, vocês são as únicas pessoas aqui que não podem me chamar de grosso. Você (e ele apontou pro Alex), haha, nem preciso dizer o porquê. Agora, Lucas certeza que cê lembra do dia em que eu me ofereci pra levar a sacola molhada e você disse “Que diferença faz?”. Eu estava tentando ser gentil e você foi um estúpido. 

Ele tinha me contado esse rolê. Eu achei que não precisava de tanto, mas a decisão já tinha sido tomada.

  • Não lembro disso.
  • Óbvio, porque não lhe convém, idiota. 
  • Ei, calma, intervi tentando não deixá-lo mais nervoso

Olha, eu poderia ter pensado em tudo, menos no rumo daquela conversa e, claro, todas as lembranças que traziam. Respirei fundo.

  • O que vocês querem de mim?
  • Eu gosto de você, disseram juntos
  • E…?
  • Eu quero saber porque você não fala mais comigo, disse o Fernando
  • E porque você não quis a camisa que eu queria te dar, emendou o Alex
  • E porque você sumiu, de novo, disse o Michel
  • E porque você me mandou aquelas mensagens grossas, finalizou o Lucas

Eu tava contra a parede. Eu poderia levantar, bloquear todas as formas de contato com qualquer um deles e seguir em frente. Mas era justamente essa postura mimada que eu tentava combater; a postura que me afastava das pessoas.

Eu amei vocês. Em intensidades e épocas diferentes, mas amei. Vocês foram importantes em muitos momentos, inclusive nos tensos. E foi difícil ver este algo especial sumir. Causou dor, choro, horas de terapia, e eu precisei seguir em frente, mesmo gostando de vocês. Foi difícil, é difícil. Às vezes me pego pensando em momentos que brotam na minha mente. Bate saudade e eu preciso seguir porque por mais especiais que tenham sido, cês são parte do meu passado. Eu gostaria de ter um motivo pra odiar vocês, mas eu não consigo odeio. Tô tentando seguir em frente, tocar minha vida, às vezes aos trancos, com mil questionamentos, mas…indo. E preciso que vocês façam o mesmo. O que a gente teve, deu o que tinha que dar. 

Em algum momento eu perdi totalmente o controle sobre o choro. Eu não queria, não na frente deles, mas senti que aquela situação, ao mesmo tempo que me causava dor, seria benéfica de alguma forma. 

Enxuguei as lágrimas, passei a mão pela calça levemente molhada e parti em direção ao elevador. Agora, o único som que saia da minha boca era tudo menos uma canção feliz.

Photo by Matthew Brodeur on Unsplash

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