Vincent

Andava pela rua distraidamente. O encantador fim de tarde e o céu alaranjado rendiam fotos incríveis. Emolduráveis.

Com o pôr-do-sol e a música, me perdi em pensamentos e não vi quando fui ao teu encontro, derrubando todas as suas compras no chão.

Vermelho de vergonha, pedi mil desculpas enquanto recolhia as coisas pela calçada. Logo percebi se tratarem de materiais para pintura: tintas, pincéis e algumas telas.

Ao devolvê-las, paralisei. Não era possível. Você se parecia muito com Vincent van Gogh. Segurei os pincéis enquanto você me olhava sutilmente intrigado.

Tudo bem?, você disse. Demorei a responder. É…sim! Desculpa, eu não te vi. Eu disse ainda abalado. Não foi nada. Eu também estrava distraído. Emudeci.

Tá tudo bem mesmo, cara?
Sim. É que você se parece muito com…
Ei, você quer tomar um café?
…quero!
E entramos na cafeteria. Discretamente me belisquei; vai que era um sonho maluco.

À mesa, descobri que você, além de apaixonado por pintura, amava o Impressionismo. A animosidade da conversa e a infinidade de assuntos não permitiram que a gente se apresentasse. Tão logo percebemos o equívoco…

Prazer, eu sou o Felipe.
Prazer! Me chamo van Gogh. Vincent van Gogh!
Como o...
Pintor. Sou eu.

Ri escandalosamente; de nervoso, talvez. Seus pais têm um ótimo gosto para nome, hein!?, descontraí. Eles foram pessoas ótimas. Meu irmão Theo é igualmente encantador. Parei de rir!

Naquele momento acreditei estar numa pegadinha; e tomei um gole de café. O breve silêncio entre nós e seus vibrantes olhos claros me transmitiam uma paz inexplicável; então comecei a chorar.

Não sei em que momento eu acreditei em tudo o que você disse — e confesso que me julguei por ser tão tolo –, mas lembro que comecei a falar desenfreadamente. Falei sobre alguns surtos que você teria, d’A Noite Estrelada, da sua relação com Paul Gauguin — que o levaria a cortar a orelha, do museu em Amsterdã em sua homenagem, das cartas que trocaria com Theo, dos livros que contariam sua história, de Loving, Vincent, e de como você seria morto acidentalmente por dois adolescentes; apesar de termos acreditado por anos que fora suicídio.

Nada abalava a sua serenidade. Até vi um leve sorriso sair de seus lábios.

Eu sei de tudo isso, Felipe. E ainda bem que vocês descobriram que eu não me matei. Nesse momento olhei para os lados, pois eu jurava estar delirando. Mas…o que você está fazendo aqui? Por que eu?

Que seria da vida se nós não tivéssemos nenhuma coragem de tentar qualquer coisa? Grandes coisas são feitas por uma série de pequenas coisas reunidas. Você não pode simplesmente parar o que está fazendo porque lhe falta inspiração. Eu sonho minha pintura, e então eu pinto o meu sonho.

Lágrimas rolavam pelo meu rosto, acompanhadas de uma enorme expressão de espanto. Se você ouve uma voz interna dizendo ‘você não pode pintar’, então pinte e essa voz será silenciada.

Coloquei meu rosto entre as mãos e desatinei a chorar, sem pretensão alguma de fazer-me discreto. Tudo aquilo me tocara profundamente.

Acordei de sobressalto, puxando todo o fôlego que eu tinha, como se estivesse me afogando no meio do mar. Tateei à procura do abajur e acendi a luz alaranjada ao lado da cama.

Sentei tentando entender o que acontecera. E não me espantei quando, debaixo dos meus óculos, estava Van Gogh: The Complete Paintings. Com o coração acelerado, levantei da cama, liguei o computador e comecei a escrever.

Eu sabia que este seria o único contato que teria com o meu pintor preferido; pelo menos até o dia em que nos encontrarmos n’O Portal da Eternidade.

Photo by Руслан Гамзалиев on Unsplash

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