Aventura no abismo

“No dia em que você […] voltar para casa, as coisas estarão arrumadas. Tu vai ter que dar um jeito aqui e ali, mas não será um problema […].”


Quando você chegou, a casa estava bagunçada. Tinham raivas debaixo do tapete, uma porção de orgulho nas estantes e situações mal resolvidas dentro dos armários no quarto. Um verdadeiro caos. Eu sei que você até queria organizar tudo, mas era tanta coisa, que entendo o desespero de não saber por onde começar.

Mas ela não deixou por isso mesmo. Cansada de esperar que você tomasse uma atitude, a vida deu um jeito de fazer com que você mesmo arrumasse tudo. Não importava o quanto tempo demoraria, mas a limpeza tinha que ser feita. E começou.

Você imaginava que seria tão difícil? Pois é! Nem eu. Foi preciso encarar a estante, olhar todos aqueles “troféus” de orgulho e quebrar um por um. Cada vez que você pegava uma estatueta, pensava no motivo de ela estar ali, e a quebrava. Agora consigo ver outro tipo de orgulho no móvel: tudo aquilo que você fez para sentir-se bem consigo mesmo.

Chegou a hora de limpar os tapetes. Que su.je.i.ra! Não importa como, mas tinha muita coisa debaixo deles. Sua rinite atacou com o (m)ar de poeira que subiu quando você começou a espaná-los. Eu via a grandeza da sua dor ao enfrentar tudo aquilo que mais te amedrontava. E, olha, que coragem! A cada tapete limpo, eu sentia um frescor no ar que foi se intensificando. Aliás, você foi ficando mais forte, lembra?

E então…os quartos. Lá estavam todas as situações mal resolvidas, acumuladas por anos, e medos que te aterrorizavam. Respira fundo e vai!, eu te disse. Às vezes você, pensando em desistir, olhava para trás, falava que tava doendo e que não ia suportar a dor. Mas você encontrou forças em si mesmo e foi em frente.

Eu te olhava e meu coração se enchia de felicidade. Meu, que foda, que maravilhoso! Mas você não enxergava todo o progresso da aventura no abismo, curioso nome que você deu para essa tarefa árdua. Lembra das vezes em que a gente conversava em frente ao espelho? De quando você se encolhia e abraçava os joelhos? Ou quando o sono te abandonava no meio da madrugada? Eu estava com você, dizendo que tudo ia ficar bem, e dando meu ombro para você encostar a cabeça e chorar.

E então você partiu sem deixar um bilhete. Mas eu te encontrei se exercitando na rua. A gente se olhou, e eu percebi que você estava, de novo, acumulando raivas, orgulhos e situações mal resolvidas, e gritei. Não! Eu não ia deixar você sujar a casa de novo. Mas você seguiu em frente, e a mim só restou respeitar a sua vontade.

Quem sou eu? A sua versão mais madura. Você amanhã.

No dia em que você, benévolo e cruel, voltar para casa, as coisas estarão arrumadas. Tu vai ter que dar um jeito aqui e ali, mas não será um problema porque o pior você já limpou. E eu te admiro por isso!

Photo by Jake Ingle on Unsplash

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