Juntos Sempre

Vó, que honra foi ter tido a senhora como, também, mãe.

Tantas histórias, né? Lembra do dia em que ficamos eu, a senhora, a mamãe e a Nana sentados no sofá relembrando fatos de quando eu era criança? A senhora dizia que eu era falante e mexia nas coisas. Eu continuo falante e mexendo nas coisas.

Lembro que toda vez que eu ia embora, a senhora me dava um conselho diferente. Dizia pra eu sempre pensar em Deus e levá-lo no meu coração. Eu amava te abraçar, beijar a sua testa e ficar com o seu cheiro em mim. Era tão gostoso!

Teve o dia em que eu fiquei uma sexta-feira inteira na sua casa depois de voltar do médico, as vezes em que eu deitava no seu colo pedindo carinho, as risadas na cozinha e na sala, várias curiosidades e histórias engraçadas. Tudo isso me conectava ainda mais contigo.

Uma das últimas fotos que tenho é da senhora e da mamãe com o Henrique em cima do sofá. Mas a minha preferida é uma em que está a senhora, a mamãe, a Nana e eu, no último dia de 2015. Vocês começaram a rir e a foto saiu maravilhosa. Encontrei-a enquanto conversava contigo, mas a senhora já estava dormindo.

Cheguei em casa e tinha 2 ligações perdidas, mensagem do Thiago e da mamãe; achei estranho. Descobri que a senhora tinha dormido pouco antes de eu chegar. Saí de casa sem saber o que pensar, sem saber se ia chorar. Andei tão rápido que esqueci as dores que sentia nas pernas.

Quando cheguei à sua casa, abracei a Nana, a mamãe e subi. Te vi deitada e chorei muito, de uma forma que eu não chorara antes. Ajoelhei-me do seu lado e fiquei um tempo calado. Eu não sabia o que falar tampouco se conseguiria. E comecei, aos poucos. Cada palavra saía com um suspiro ou gemido de saudade. As lágrimas rolavam quando a mamãe entrou no quarto. Levantei, abracei-a e choramos juntos.

A noite parecia que seria longa, mas passou tudo muito rápido. Subi diversas vezes, chorei ao seu lado, e quando dei por mim, estava te carregando escada abaixo; aquilo foi um primeiro adeus.

Fui dormir e tão logo, acordei. Família unida, trâmites a resolver, ligações a fazer, e uma saudade sem tamanho. Fomos ao seu encontro. O dia estava frio, chuviscava e uma névoa tomava forma em nossos corações. Peguei com a mamãe uma sacola com as suas roupas e o sapato e segurei o mais firme que pude. Eu não queria te deixar ir, mas eu precisava.

Chegamos ao lugar de descanso. Algumas burocracias postergavam o nosso adeus e dilatavam a dor da perda. Fui chamado para te reconhecer, vestida com a roupa que suas filhas escolheram. Chorei quando te vi. Uma lágrima caiu na tampa de madeira que te cobriria, e pensei: parte de mim vai com ela.

O momento do adeus se aproximava. Fizemos carinho em suas mãos, na sua cabeça, te beijamos, deixamos nossas saudades e várias lágrimas foram junto contigo, ao lado das flores que te envolviam. Exatamente da forma como a senhora queria.

Te colocamos no carro que te levaria ao local de descanso físico, pois sei que a senhora está viva em outro plano, louvando a Deus e cuidando de nós com carinho. Fiquei parado, em profundo silêncio, vendo a terra nos separar.

Já chorei muito e sei que vou chorar mais. A saudade permanece, e com ela, todos os momentos incríveis que tivemos. Obrigado por ter sido uma mulher forte, vó. Cuida da gente daí onde a senhora está porque nós jamais deixaremos a senhora partir daqui, dos nossos corações.

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